
Há dias
uma leitora dizia-se perplexa com a minha análise a uma peça jornalística apresentada pela SIC sobre
Procriação Medicamente Assistida (PMA). E encontro razões para que ela, e muitas outras pessoas que lessem o meu
texto, se sentissem igualmente perplexas. Praticamente não existe em Portugal sentido crítico, existe um sentido censório (que todos sabemos de onde vem) e que, claro, é mais sentimental que argumentativo. Contra isso não há nada a fazer. Não há nada a argumentar, porque o que o coração sente, a razão ou o pensamento não podem desmentir. Todos nos enternecemos com o riso ou o choro de uma criança de meses. Para não falar de imagens de fetos que passam por crianças.
É por isso que é quase inútil combater a falta de sentido crítico em Portugal. A generalidade das pessoas não têm instrumentos que lhes permitam ler notícias e formar um pensamento distante daquele que o quadro cultural estabelece. Não em vão cada vez mais gente se opõe ao ensino público e à sua obrigatoriedade. Não em vão as telenovelas ocupam os espaços televisivos que deveriam ser ocupados com programas de transmissão de conhecimento e de desafio à mente.
A RTP, e os media em geral, sabem disso. Nada de mal viria ao mundo se isso fosse ainda mais transparente. A de que a actividade jornalística é uma
actividade interpretativa. Infelizmente, ao contrário da vizinha Espanha por exemplo, em Portugal as coisas passam-se como se houvesse uma suposta verdade superior. Um suposto lado isento. E tudo passa com a maior das canduras e das inocências, porque o que lá vem escrito ou dito só pode ser a "verdade". Combatê-la é, não só, um exercício inútil como perigoso. É-se doido varrido porque se viu o que mais ninguém viu.
Todo este paleio a propósito de mais uma lavagem de cérebro no Jornal da Tarde da RTP. De hoje claro. Duas notícias sobre o referendo (que continua, sabe-se lá porquê, a ser ao aborto). Antecedido por uma chamada de atenção sobre um novo instrumento, apresentado pela Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), que «
permitirá qualquer pessoa ou entidade efectuar as suas projecções demográficas, com uma enorme riqueza de dados».
Depois das duas peças sobre o referendo, uma das quais sobre a enorme «diferença que separa o número de visitas ao vídeo do "Professor" e ao de Francisco Louçã», eis a bomba: a
APFN propõe um cenário demográfico catastrófico para o Portugal de 2050. Criancinhas, maternidades, choro aqui e beicinho acolá. Tudo já bem longe da
violência sobre crianças por parte de membros de uma instituição católica de acolhimento a «meninas» com que o Jornal abriu.
Pergunto-me a mim mesmo o que achará a minha leitora disto tudo. O mais certo é dizer-me que sou uma vergonha para o SIM no referendo e que não há mal nenhum em emocionar-se com os nascimentos e com o apelo à natalidade. Que não há quaisquer intenções de apelo ao Não. Que elas só estão na cabeça de uma pessoa transtornada. E o mais certo é o provedor da
RTP achar exactamente a mesma coisa.